A vida não é coerente. Já percebeu isso?
E o problema começa quando você exige que ela seja.
Você quer se soltar, mas também quer controle.
Quer amar, mas morre de medo de se machucar.
Quer viver com intensidade, mas trava quando sente demais.
Quer escalar uma rocha, mas tem medo de cair.
A vida é paradoxal.
Existe uma parte sua que quer expansão, e outra que quer proteção. Uma quer ir, a outra quer controlar. Uma que sente e outra quer controlar o que sente.
E aí começa a guerra interna. 🫠
Você tenta ser mais forte, mais segura, mais resolvida… quando, na verdade, talvez esteja só se afastando do que sente.
Porque o problema não é sentir medo. É o medo de sentir o medo.
Percebe a diferença?
Não é a emoção em si que aprisiona. É a contração interna que acontece quando você tenta não senti-la.
O medo vem… e você endurece.
A tristeza aparece… e você se distrai.
A raiva surge… e você se culpa.

Você luta desesperadamente para não entrar em contato com aquilo que está vivo dentro de você.
E isso cansa. O corpo cansa. A mente cansa.
Porque viver em estado constante de autocontrole gera rigidez, ansiedade, neurose.
Você começa a viver tentando administrar emoções ao invés de viver a vida.
Como se sentir fosse perigoso. Mas sentir nunca foi o problema, sentir é o que precisamos!

Quem está vivo, sente.
Sentir medo e tristeza não significa fraqueza. Sentir raiva não te torna ruim.
Emoções são movimentos naturais da vida que se experiência e atravessa o corpo.
O problema é que fomos ensinadas a reprimir, controlar e anestesiar tudo aquilo que nos deixa vulneráveis.
Então criamos estratégias para anestesiar e não sentir, porque temos medo de sentir: ficamos excessivamente ocupadas, produtivas, racionais, distraídas.
Só que o corpo continua sentindo. E emoções não desaparecem só porque você decidiu não olhar para elas.
Elas permanecem: Na tensão do maxilar, na respiração curta, na ansiedade constante.
Na exaustão de “precisar estar sempre bem”.

Existe um ponto que é paradoxalmente libertador:
você não se transforma lutando contra o que sente. Você se transforma quando para de fugir e brigar contra o que sente. Quando consegue sentir… e sustentar.
Sem romantizar. Sem se afundar no sofrimento. Sem transformar dor em identidade.
Aceitar o que sente não é se acomodar. Aceitar é parar de desperdiçar energia negando algo que existe dentro de você. É abrir espaço interno.
Enquanto você está em guerra consigo mesma, não sobra espaço para você ser como é.
Mas quando essa luta interna diminuí… o corpo respira, a mente desacelera das cobranças e racionalizações, a vida volta a passar por você.
Não porque ficou fácil.
(A vida continua sendo imprevisível, contraditória e muitas vezes dura.)
Mas porque você parou de resistir à experiência de estar viva.
E viver é sentir.
Quem vive, sente.
No fim talvez, viver sem medo, não seja sobre não sentir medo. Seja sobre não precisar se abandonar e iniciar uma briga interna, toda vez que ele aparece.
O medo não surge necessariamente contra você. Ele é comunicação. O problema começa quando você se torna o próprio lugar que reprime, endurece e não permite que essas emoções existam. Porque emoções precisam de espaço.
E boa parte do sofrimento humano é justamente isso: não conseguir co-habitar com aquilo que sente.

Sou Anjali Clara. Terapeuta Corporal. Escrevo sobre a vida, corpo, feminino e psicologia.


