Por que repetimos as mesmas histórias?
Durante muito tempo achei que os problemas dos relacionamentos estavam na escolha da pessoa errada.
Depois comecei a me questionar o seguinte:
Por que escolhemos as pessoas erradas?
A gente sofre. Promete que nunca mais vai se envolver com alguém daquele jeito. Faz listas mentais do que não quer repetir. Conta pras amigas que agora aprendeu a lição. Mas passa um tempo e quando percebe, vivendo sentimentos estranhamente parecidos com a história passada.
Muda o nome.
Muda o rosto.
Muda a profissão.
Mas alguns sentimentos parecem os mesmos.
A sensação de não ser escolhida.
O medo de ser abandonada.
A dificuldade de confiar.
A necessidade de agradar.
A impressão de estar sempre correndo atrás de alguém.
Por que isso acontece? É muito fácil pensar que o problema está nas pessoas que encontramos (e até confortável). Mas existe uma outra possibilidade:
Nossas escolhas não são totalmente consciente. Escolhemos também com as nossas feridas.

A psicologia corporal entende que ao longo da vida, especialmente na infância, passamos por experiências que nos marcam profundamente. Algumas nos fazem sentir amados e seguros. Outras nos fazem sentir rejeitados, humilhados, abandonados ou insuficientes.
Quando isso acontece, criamos formas de nos proteger Algumas pessoas aprendem a agradar para não serem rejeitadas, outras aprendem a não precisar de ninguém, algumas sentem que não podem demonstrar fraqueza e tentam ser extremamente fortes em todos momentos, outras fazem de tudo para serem necessárias (as estratégias são inúmeras).
E na infância, essas estratégias podem ter ajudado, mas o problema é que crescemos e essas defesas continuam. Elas deixam de ser apenas uma forma de proteção e passam a fazer parte da nossa personalidade, da nossa forma de enxergar o mundo e do nosso corpo.
Nossa história não está apenas na memória, nossa história também está no corpo.
Na forma como respiramos, na facilidade ou dificuldade que temos de confiar, na maneira como nos aproximamos das pessoas, no quanto conseguimos sentir, no quanto conseguimos nos posicionar, no quanto cedemos ou nos anulamos para manter um vínculo.

É aqui que as repetições começam.
Uma pessoa que tem muito medo de ser abandonada pode acabar se aproximando de parceiros emocionalmente indisponíveis. Não porque ela quer sofrer, mas porque existe algo nessa dinâmica que lhe parece familiar.
Outra pode sentir uma atração enorme por pessoas difíceis de conquistar e indisponíveis. Quando finalmente recebe atenção, sente um alívio enorme. Como se estivesse tentando resolver uma falta antiga.
Sem perceber, começamos a procurar fora situações que conversam com histórias que ainda estão vivas dentro de nós.
O psicoterapeuta bioenergético Alexander Lowen, no livro Medo da Vida, traz uma ideia que me marcou muito:
As defesas que criamos para não sofrer acabam produzindo exatamente o sofrimento que tentamos evitar.
Quem tem medo da rejeição pode se preocupar tanto em agradar que deixa de ser quem realmente é.
Quem tem medo de depender pode se fechar tanto que nunca experimenta intimidade.
Quem tem medo de ser abandonado pode se agarrar tanto que sufoca a relação.
As defesas viram nosso destino
E não fazemos isso por falta de inteligência. Nem porque gostamos de sofrer. Fazemos porque estamos tentando nos proteger, porém o corpo não sabe mais existir de outro modo além dessa defesa, pois muitas vezes o que nos protege, se ficamos cristalizados nessa proteção, também nos aprisiona.

Por isso, muitas vezes, não é uma questão de apenas encontrar uma pessoa certa, é perceber em seu corpo:
- Como as histórias antigas continuam influenciando a forma como você se relaciona hoje?
- Quais estratégias te ajudaram a sobreviver, mas continuam conduzindo seus relacionamentos?
- Quais medos ainda estão organizando suas escolhas?
- Quais dores você continua tentando evitar?

A psicologia corporal propõe que a transformação não acontece apenas através da compreensão racional. Ela acontece quando começamos a perceber essas histórias no corpo.
Porque o padrão não está somente na mente. Está na respiração, no movimento corporal, na tensão, na postura, na forma de se aproximar, na forma de se afastar, na dificuldade de confiar, na dificuldade de sentir.
E hoje para mim, a pergunta mais importante não é:
“Por que escolho pessoas erradas?“
e sim:
Como minhas histórias passadas continuam vivendo no meu corpo e influenciando a maneira como me relaciono hoje?
E principalmente:
Como posso começar a construir novas experiências a partir disso?

Me chamo Anjali Clara, sou terapeuta corporal. E escrevo sobre a Vida, Feminino, Corpo e Psicologia. Com visceralidade e vida pulsando! ❤️🔥


